"É um tormento não conseguir perdoar, isso nos gera culpa, peso na consciência, noites sem dormir, tratamentos psiquiátricos e atitudes extremas por entendermos que é uma obrigação do bom cristão conforme nos foi cravejado na alma a duras penas através da tortura emocional e física ao longo do tempo".
Esse é o motivo pelo qual muitas pessoas pensam que precisam perdoar. Seja qual for o motivo da ofensa, as pessoas têm medo de serem julgadas e não poderem entrar no céu.
Esse conceito de céu e inferno tem traçado o caminho da humanidade desde quando o homem passou a acreditar menos em si e mais no invisível e obscuro que está escondido por traz da morte. O medo é um sentimento que acompanha o inconsciente humano, incrustrado na região mais primitiva do nosso cérebro reptiliano, onde ficam os nossos instintos de sobrevivência como respiração, batimentos cardíacos, temperatura corporal, ataque e defesa, segurança, entre outros. O medo existe e nos condiciona a comportamentos impensáveis, mas o importante aqui é salientarmos o motivo pelo qual intencionamos o perdão quando esse vem por pressão e não espontaneamente, pois isso é um processo que poucos conseguem entender.
É um tormento não conseguir perdoar, isso nos gera culpa, peso na consciência, noites sem dormir, tratamentos psiquiátricos e atitudes extremas por entendermos que é uma obrigação do bom cristão conforme nos foi cravejado na alma a duras penas através da tortura emocional e física ao longo do tempo. Mas não precisamos seguir assim, pois não iremos para o inferno por não entendermos o real motivo do perdão, pior ainda é ir para o inferno por perdoar falsamente somente para se safar do calor escaldante dos salões demoníacos.
O perdão, meu querido leitor, não é para a outra pessoa, o perdão acontece quando nós entendemos a profundidade do sentimento que foi gerado dentro de nós pelas atitudes dos outros. Quantos gatilhos foram acionados e até onde essa emoção mexeu e bagunçou nosso inconsciente, trazendo à tona coisas que estavam por muito tempo camufladas ou bem encobertas para nos pouparmos da agonia de possuí-las. A dor é nossa, a ofensa é nossa, a repugnância ou a vergonha é nossa, a culpa que sentimos por nos deixarmos ser abusados é nossa e é com esse sentimento que precisamos trabalhar, é dentro da gente. O perdão é cruel, ele não vem de fora, exatamente porque precisa ser elaborado primeiro para nós, e quando isso acontece é muito mais fácil olharmos para os outros e abraçá-los novamente, conversarmos ou minimizarmos o motivo que criou toda uma situação avassaladora “dentro” de nós. É difícil, eu sei, porque também não perdoei muitas coisas na minha vida, elas ainda me machucam como machucam vocês que lêem isso, somos humanos e não deuses, pensamos e sentimos como humanos, somos ofendidos e ofendemos como humanos e precisamos nos entender para termos mais humanidade.
O céu e o inferno estão dentro de nós. Existe sim a divindade em que cada um acredita, Deus, Alá, Krishna, Zeus, Buda, Odin, Hashem, a Deusa Mãe e muitas outras, não discuto isso, mas somos nós os julgadores, deuses e demônios, e cabe a nós termos compaixão conosco, trabalharmos nossa culpa, nossa dor, nossos traumas, para depois sentir o alívio na alma que nos fará olhar para nossos ofensores de maneira bem mais suave ou até com indiferença, sem medo de ir para o fogo.
Carla Augusta Thomaz
Psicanalista
