Criado em 2014, o Janeiro Branco consolidou-se como um
movimento social e cultural que convida a sociedade a refletir sobre um tema
ainda cercado de silêncios e estigmas: a saúde mental. Ao eleger o início do
ano como ponto simbólico de reflexão, a campanha propõe que indivíduos,
famílias, empresas e instituições repensem rotinas, escolhas e relações.
Em 2026, com o tema “Paz · Equilíbrio · Saúde Mental”, o
movimento reforça uma mensagem urgente em tempos de hiperconexão, excesso de
estímulos e instabilidade emocional: cuidar da mente não é luxo, é necessidade
básica. Desacelerar, reorganizar a vida emocional e fortalecer vínculos humanos
são atitudes essenciais para a qualidade de vida e para a saúde integral.
Dentro desse contexto, o Olhar Daqui RS ouviu o
psiquiatra Geanpaolo Aver, que destaca a importância de dar visibilidade ao
tema. “Ter um mês dedicado à saúde mental é fundamental para lembrar as pessoas
de que a mente precisa de cuidados da mesma forma que o corpo”, afirma.
Segundo o médico, saúde mental está diretamente ligada à
satisfação com a própria vida. “Precisamos nos perguntar se as nossas escolhas
estão alinhadas com aquilo que sonhamos para nós mesmos. Saúde mental é viver
de acordo com o que se acredita, com o que se deseja e com aquilo que faz
sentido”, explica.
O ambiente também adoece
Para o psiquiatra, não é possível falar de equilíbrio
emocional sem observar o meio em que as pessoas vivem. “Ninguém mantém saúde
mental em ambientes adoecidos. Relações tóxicas, insegurança financeira,
desorganização e falta de perspectiva corroem a mente aos poucos”, alerta.
Além do olhar individual, Geanpaolo defende a necessidade de
pensar a saúde mental coletiva, com uma sociedade mais empática, acolhedora e
menos julgadora. “Vivemos em um tempo em que as pessoas adoecem juntas, mas
tentam se tratar sozinhas”, observa.
Janeiro, tradicionalmente associado ao planejamento do ano,
também deve incluir o cuidado com a mente. “Planejar a vida emocional é tão
importante quanto planejar a vida financeira ou profissional. Objetivos
precisam ser reais, possíveis e compatíveis com a fase de vida de cada um”,
diz.
Segundo ele, o cuidado começa no básico: ambiente
organizado, alimentação equilibrada e rotina minimamente estruturada. “Pode
parecer simples, mas não é. A saúde mental começa no lar, no prato de comida,
na qualidade do sono”, ressalta.
A felicidade mora no simples
Geanpaolo chama atenção para uma inversão de valores comum
na sociedade atual. “Muitas pessoas passam anos acumulando bens, buscando
status, e chega um momento em que tudo o que desejam é dormir bem, comer bem e
estar bem com quem amam. A felicidade está nas coisas simples”, afirma.
Isso, segundo ele, não significa abandonar ambições
financeiras. “Estabilidade econômica é fundamental, inclusive para reduzir a
ansiedade. Não ter preocupações excessivas com contas permite desfrutar melhor
das coisas simples”, completa.
Brasil ansioso
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam o
alerta: o Brasil lidera o ranking mundial de prevalência de transtornos de
ansiedade. Para o psiquiatra, esse cenário está ligado à instabilidade e à
falta de estrutura básica na vida das pessoas.
“O brasileiro vive em constante insegurança: no trabalho,
nos relacionamentos, no futuro. Quando não há previsibilidade, a ansiedade se
instala”, explica. Ele também aponta falhas estruturais, como a ausência de
educação financeira e de educação emocional desde a infância. “As gerações
estão desorganizadas emocionalmente. Pequenos problemas ganham proporções
gigantescas porque falta base, preparo e resiliência”, analisa.
Entre o excesso e a falta de compromisso
Geanpaolo também observa mudanças comportamentais entre
gerações. “Antes, havia gerações extremamente comprometidas, que trabalhavam a
vida inteira e não viviam. Hoje, vemos o extremo oposto: gerações
descompromissadas, que rejeitam responsabilidade e estabilidade”, avalia.
Para ele, o equilíbrio se perdeu. “Compromisso gera
segurança. A ideia de viver apenas o presente é sedutora, mas não sustenta uma
velhice digna. Se tudo der certo, vamos envelhecer — e o Estado não dá conta de
todas as necessidades da terceira idade. A saúde mental, nessa fase, é ainda
mais frágil”, alerta.
Telas, ansiedade e solidão
Na avaliação do psiquiatra, a ansiedade é hoje o principal
transtorno mental em crescimento, impulsionado, entre outros fatores, pelo
excesso de telas. “A hiperestimulação neuronal causada por celulares e redes
sociais gera um estado constante de alerta. A mente não descansa”, explica.
Ele relata que muitos pacientes, inclusive crianças e
adolescentes com transtornos do neurodesenvolvimento, chegam às consultas com o
celular na mão. “As pessoas não param mais para conversar, ler ou simplesmente
ficar em silêncio. Estão criando a própria ansiedade”, afirma.
Julgamento, exposição e sofrimento
O debate sobre saúde mental ganhou novos contornos
recentemente com a repercussão de um vídeo gravado em São Valentim (RS), em que
uma mulher afirmava aguardar a chegada do ator Brad Pitt para se casar. O caso
viralizou, gerou memes, julgamentos e exposição internacional.
Para Geanpaolo, situações assim revelam uma sociedade pouco
empática. “Não posso emitir diagnóstico sem conhecer a pessoa, mas é evidente
um quadro de carência emocional. Muitas pessoas buscam atenção porque não
encontram afeto onde vivem”, observa.
Ele critica a banalização e o deboche diante das
fragilidades humanas. “Humor é saudável, humilhação não. Todos têm carências.
Transformar isso em chacota diz mais sobre quem julga do que sobre quem é
julgado”, afirma.
O psiquiatra alerta ainda para os riscos desse tipo de
exposição. “Quando isso acontece com alguém em sofrimento psíquico grave ou com
ideação suicida, as consequências podem ser irreversíveis.”
Ao final, Geanpaolo deixa um apelo que dialoga diretamente
com o espírito do Janeiro Branco. “Que essa mulher receba o cuidado necessário
e que as pessoas parem de usar a dor alheia como entretenimento. Estamos
vivendo tempos de vazio emocional, em que muitos preenchem seus dias atacando
os outros.”
O Janeiro Branco, mais do que uma campanha, propõe uma
mudança de postura: menos julgamento, mais escuta; menos pressa, mais presença;
menos aparência, mais essência. Porque cuidar da saúde mental é, antes de tudo,
um exercício diário de humanidade.