Entrevista com Taís Neetzow reforça que muitos casos
de violência poderiam ser evitados com denúncia, proteção e rede de apoio
A dor deixada por um feminicídio não termina no momento do
crime. Ela se prolonga no luto das famílias, no trauma das comunidades e no
alerta que ecoa para toda a sociedade. O Olhar Daqui RS aprofunda agora
uma dimensão essencial desse debate: o papel da prevenção, da denúncia e da
atuação das instituições no enfrentamento à violência contra a mulher.
Em entrevista à nossa equipe, a delegada de Polícia Civil de
Tapejara, Taís Bee Wittee Neetzow, traça um panorama contundente sobre a
realidade local e regional, analisa o perfil dos agressores, explica como se
desenvolvem os ciclos de violência e faz um alerta que atravessa boa parte dos
casos mais graves: muitas vítimas não chegam a registrar boletim de ocorrência
antes que a violência escale para tentativas de feminicídio ou para o
feminicídio consumado.
A fala da delegada ganha ainda mais peso diante do cenário
alarmante no Rio Grande do Sul. Um relatório final elaborado por uma comissão
da Câmara dos Deputados aponta que o estado vive um dos períodos mais críticos
em relação à violência contra as mulheres. Somente em 2025, 80 mulheres foram
mortas no RS. No recorte histórico entre 2012 e 2025, foram 1.284
feminicídios, segundo dados oficiais — uma média anual de 91,7 casos, o
equivalente a um feminicídio a cada quatro dias e uma tentativa de feminicídio
a cada 31 horas.
O início de 2026 também acendeu um novo sinal vermelho: em
apenas um mês, o Rio Grande do Sul registrou 11 feminicídios, muitos deles com
características semelhantes às ocorridas no ano anterior.
O caso de Tapejara e o que ele revela
À frente da Delegacia de Tapejara desde 2020, Taís Neetzow
conhece de perto a realidade do município. Bacharel em Direito pela
Universidade de Passo Fundo (UPF), formada em 2007, ela ingressou na Polícia
Civil em 2013, com passagens por Salto do Jacuí, Lagoa Vermelha e,
posteriormente, como delegada plantonista na DPPA de Passo Fundo.
Ao comentar o último feminicídio registrado em Tapejara, em
dezembro de 2025, a delegada explica que se tratou de um caso considerado
atípico, justamente por fugir do padrão mais comum observado nas ocorrências de
violência doméstica. “Foi um caso considerado atípico porque o agressor não
tinha um relacionamento conjugal com a vítima”, afirmou.
Segundo ela, os casos considerados mais típicos de violência
contra a mulher costumam ocorrer dentro de relacionamentos estáveis ou
casamentos, em que há uma escalada progressiva de agressões físicas, verbais ou
psicológicas. Em muitos desses casos, a vítima encontra forças para denunciar e
solicitar medida protetiva. Em outros, infelizmente, o ciclo termina de forma
trágica.
Mas a delegada chama atenção para uma realidade preocupante:
os episódios que fogem desse padrão tradicional também têm resultado em crimes
gravíssimos. “O que tem fugido dos casos típicos e, muitas vezes, resultado em
feminicídio é o fato das mulheres que não registram boletim de ocorrência
contra o agressor.”
Nos últimos dois anos, conforme Taís, a maioria dos casos de
tentativa de feminicídio ou feminicídio envolveu mulheres que não haviam
formalizado denúncia anterior. Ela cita ainda o caso recente de tentativa de
feminicídio registrado no início de março, quando uma mulher foi esfaqueada
pelo ex-companheiro. Assim como no caso de dezembro, tratava-se de um
relacionamento breve. “Eles tiveram poucos meses de relacionamento”, observou.
A constatação é importante porque ajuda a romper um mito
ainda persistente: a violência contra a mulher não está restrita a relações
longas ou casamentos duradouros. Ela pode surgir também em vínculos recentes,
marcados por posse, controle e agressividade precoce.
Violência começa antes da agressão física
Um dos pontos mais relevantes da entrevista é o reforço de
que a violência contra a mulher nem sempre começa com socos, empurrões ou
lesões aparentes. Antes disso, muitas vezes, ela se manifesta de forma
silenciosa e gradual, dentro do chamado ciclo da violência.
A delegada e especialistas alertam que agressões verbais,
humilhações, ameaças, perseguições, manipulações e controle excessivo podem ser
os primeiros sinais de uma escalada que, se não for interrompida, pode evoluir
para lesões corporais e até feminicídio. Por isso, reconhecer esses sinais e
buscar ajuda o quanto antes é decisivo.
As cinco formas de violência previstas na Lei Maria da
Penha
- Violência
física: qualquer agressão que cause dor ou lesão corporal, desde
empurrões, tapas e apertões até agressões mais graves;
- Violência
psicológica: ameaças, humilhações, constrangimentos, manipulação,
isolamento, perseguição e chantagens que afetam a autoestima e a saúde
emocional da vítima;
- Violência
moral: calúnia, difamação e injúria, incluindo acusações falsas,
ofensas públicas e ações que manchem a reputação da mulher;
- Violência
sexual: qualquer ato sexual sem consentimento, e não apenas o estupro
com penetração;
- Violência
patrimonial: retenção de dinheiro, destruição de bens, impedimento de
trabalhar, apropriação de objetos e danos materiais causados pelo
agressor.
A orientação é clara: todas essas formas são graves, todas
são violência e todas devem ser levadas a sério.
Quem agride? Um perfil que atravessa classes sociais
Questionada sobre o perfil dos autores de violência
atendidos pela Delegacia de Tapejara, Taís afirma que há um padrão
predominante, embora o problema atravesse toda a sociedade. “Posso dizer que
eles estão em todas as classes sociais. Na maioria dos casos, o agressor tem
entre 20 e 50 anos, com escolaridade de ensino fundamental e médio.” Ainda
assim, ela ressalta que o fenômeno não exclui outros grupos e não pode ser
reduzido a um recorte simplista.
Mais do que um perfil individual, a delegada aponta para uma
raiz estrutural e cultural. Em Tapejara, segundo ela, a maior parte dos
feminicídios e tentativas de feminicídio consumados envolve o uso de arma
branca, como facas e canivetes, e não de arma de fogo.
Os números de Tapejara: 44 casos em pouco mais de dois
meses
Quando a entrevista foi realizada, em 11 de março de 2026,
Tapejara já havia registrado 44 casos de violência contra a mulher desde 1º de
janeiro. Desses, 40 resultaram em solicitação de medida protetiva.
O dado, embora alarmante, é interpretado pela delegada como
um indicativo positivo sob um aspecto essencial: quando a mulher procura a
polícia e solicita a medida protetiva, o caso entra no radar institucional,
permitindo monitoramento, acompanhamento e atuação preventiva. “A gente
recomenda a solicitação da medida, mas infelizmente muitas não querem dar
seguimento”, explicou.
Na avaliação da delegada, o maior desafio continua sendo a
violência não registrada. “O que realmente nos preocupa é a violência não
registrada. Mulheres que, por anos, sofrem caladas.” Ela também destaca que, em
muitos casos, a dependência que mantém a mulher presa ao ciclo de violência é
mais emocional do que financeira, embora esse fator varie conforme a classe
social e a realidade de cada vítima.
Campanhas aumentam denúncias
Outro dado relevante trazido pela delegada é que, nos meses
de março e agosto, quando tradicionalmente há campanhas de conscientização
voltadas à proteção da vida das mulheres, o número de registros costuma
aumentar.
Longe de representar um agravamento isolado da violência
nesses períodos, o aumento pode indicar algo fundamental: mais mulheres estão
conseguindo romper o silêncio. Além disso, há crescimento de denúncias
anônimas, feitas por vizinhos, familiares ou pessoas que presenciam situações
de risco. “Qualquer pessoa que presencie uma violência deve chamar a Brigada
Militar”, orientou.
Mudança na lei amplia proteção com tornozeleira e
dispositivo de alerta
No dia 18 de março, o Senado aprovou um projeto de lei que
endurece a proteção às vítimas em situações de risco: agressores passarão a
usar tornozeleira eletrônica de forma obrigatória quando houver ameaça atual ou
iminente à integridade física ou psicológica da mulher. Até então, o uso do
equipamento era facultativo ou complementar a outras decisões judiciais.
Em Tapejara, segundo a delegada, já existem diversos casos
de agressores monitorados por tornozeleira. Com a mudança, a aplicação deverá
ser imediata em cenários de risco concreto. O projeto também prevê um reforço
importante na proteção da vítima: ela deverá receber um dispositivo de
segurança portátil, capaz de emitir alertas automáticos e simultâneos para a
mulher e para a unidade policial mais próxima caso o agressor ultrapasse o
perímetro de exclusão fixado pela Justiça.
A medida representa um avanço na tentativa de tornar a
proteção judicial mais efetiva, especialmente em casos em que a vítima vive sob
medo constante de descumprimento da ordem.
Enfrentamento exige rede: educação, saúde mental,
assistência social e segurança pública
Para a delegada Taís, a resposta à violência contra a mulher
não pode se limitar ao registro policial ou à repressão penal. Ela precisa ser
ampla, integrada e permanente. “É necessário começar pela educação, as crianças
precisam aprender que não devem agredir nem permitir serem vítimas. Também é
necessário um trabalho na área de saúde mental, tanto com atendimento para
mulheres quanto para homens. A assistência social também deve ter condições de
identificar situações de violência e principalmente prevenção junto às famílias
que atende. E a segurança pública também precisa ampliar o atendimento e acesso
das mulheres aos registros. Enfim, é um trabalho que envolve várias esferas.”
A declaração sintetiza uma compreensão hoje cada vez mais
defendida por especialistas: feminicídio não é um fato isolado. É o estágio
extremo de uma violência construída ao longo do tempo, sustentada por
silêncios, omissões, medo e falhas na rede de proteção.
Sala das Margaridas: um projeto de acolhimento humanizado
para Tapejara
Entre as iniciativas que podem representar um avanço
concreto em Tapejara, a delegada destaca a implantação da Sala das Margaridas,
projeto já adotado pela Polícia Civil em diversos municípios gaúchos. A
proposta é oferecer um espaço de acolhimento humanizado às mulheres em situação
de violência, garantindo privacidade, segurança emocional e condições adequadas
para o relato das agressões sofridas.
Mais do que uma estrutura física, a Sala das Margaridas
simboliza uma mudança de abordagem: reconhecer que a mulher chega à delegacia,
muitas vezes, em estado de choque, medo, culpa ou extrema vulnerabilidade. A
expectativa é de que o espaço fortaleça a confiança das vítimas no sistema de
proteção e facilite o acesso à denúncia.
Texto e foto: Olhar Daqui RS
