“Minha mãe era luz”: filha de Ivete Cordeiro transforma dor em alerta contra a violência e o feminicídio

 




“Minha mãe era luz”: filha de Ivete Cordeiro transforma dor em alerta contra a violência e o feminicídio

Tapejara viveu uma tragédia que interrompeu uma vida de luta, amor e dedicação. No dia 19 de dezembro de 2025, Ivete Alves Cordeiro, de 48 anos, foi vítima de feminicídio no bairro Sol Poente, no último caso registrado no município.

O crime, classificado como feminicídio seguido de suicídio, aconteceu na residência de Ivete. Ela e o agressor, um homem de 61 anos, foram encontrados por um genro da vítima, que também morava na casa. Ambos apresentavam ferimentos provocados por arma branca.

Segundo as informações apuradas, o homem desejava manter um relacionamento com Ivete, mas não era correspondido. Ele foi até a casa da vítima e cometeu o crime.

Ivete deixou os filhos Alisson, Pâmela e Alessandra, e um vazio impossível de preencher.

Mais de três meses após a morte da mãe, Alessandra Terêncio aceitou falar à reportagem do Olhar Daqui RS. Em um relato forte, comovente e necessário, ela transformou o luto em um alerta para outras mulheres.

“Cada vez que tenho que falar nesse assunto dói, dói muito. E não sei se algum dia a dor vai embora”, desabafa Alessandra.

Ao relembrar quem era Ivete, a filha não fala apenas de uma vítima. Fala de uma mulher que construiu a vida com coragem, dignidade e amor pelos filhos. “Eu carrego em mim a mulher guerreira que ela sempre foi, batalhadora, que muitas vezes no final das faxinas sentia fome e mesmo assim não usava o dinheiro que recebia para si, mas para passar no mercado e comprar algo para os filhos comerem”, recorda.

Ela também descreve uma mãe de sorriso fácil, presença marcante e afeto transbordante. “Minha mãe era e é luz. Uma mulher completamente apaixonada pelos três filhos. E pelos netos então, nem se fala do tamanho do amor que ela tinha por eles.”

Segundo Alessandra, Ivete era uma mulher conhecida pela simplicidade, pela generosidade e pela forma acolhedora de viver. “Era a mulher do sorriso sempre estampado no rosto, muitas vezes passando por um turbilhão de problemas, mas sempre sorrindo. Onde passava, cumprimentava a todos. Como ela mesma dizia: ‘eu sou povão’.”

Uma amizade que se transformou em obsessão

O relato da família revela que o homem que matou Ivete mantinha uma relação de proximidade com ela, mas queria algo além de amizade. Segundo Alessandra, sua mãe deixou claro, diversas vezes, que não desejava um relacionamento amoroso.

“Ela tentou ajudar o homem que a matou. Levou para a igreja, ajudou a sair do álcool. E, no fim de tudo isso, ele se sentiu no direito de tirar a vida dela, por querer mais do que uma amizade”, relata.

Com o passar do tempo, a família começou a perceber comportamentos que hoje são identificados como sinais claros de obsessão. “Hoje, olhando para trás, percebo que havia, sim, alguns comportamentos que víamos nele, mas nunca levamos a sério ou imaginávamos o homem tão cruel que ele era”, afirma.

Ela conta que o homem insistia em presentear Ivete, mesmo quando ela recusava, e frequentemente se colocava em situações que demonstravam invasão e controle. “Muitas vezes ele chegava com presentes e ela não aceitava porque sabia que era com segundas intenções. Mesmo assim, ele jogava os presentes em cima da mesa dela”, lembra.

Segundo Alessandra, ele falava repetidamente sobre suicídio por não conseguir conquistar o amor de Ivete. “Ele sempre falava que iria se matar porque não conseguia conquistar o amor da mãe, que sempre tinha esperança de que um dia eles seriam um casal.”

Apesar das ameaças contra si mesmo, Alessandra diz que nunca ouviu ameaças diretas contra a mãe, o que, à época, contribuiu para que a gravidade da situação não fosse totalmente compreendida. “Aparentemente, ele mostrava a intenção de ‘cuidar dela’. Hoje sabemos que era uma farsa. Não percebemos os sinais, a obsessão por ela, por querer que ela ficasse só com ele.”

O aviso que veio tarde demais

Alessandra relembra um episódio que hoje carrega como um dos sinais mais fortes de que o risco era real. “Me lembro que um dia ele veio até minha casa chorando, dizendo que amava nossa mãe e não sabia viver sem ela. Ele disse: ‘Ale, tua mãe ainda irá chorar lágrimas de sangue o dia em que eu me matar’.”

Assustada, ela imediatamente alertou a mãe para que não deixasse mais ele entrar na casa. Uma semana depois, Ivete tomou a decisão de se afastar.  “Ele foi até a casa dela e a matou”, resume, em uma frase curta e devastadora.

A filha também revela que o homem sabia que, embora separados, Ivete e o ex-marido ainda mantinham carinho e vínculo, o que despertava ciúmes. “Minha mãe e meu pai eram separados, mas ainda se amavam. O homem que a matou sabia disso e tinha ciúmes. Muitas vezes chegou a falar que mataria meu pai.”

“Obsessão não é amor”

Em meio ao luto, Alessandra decidiu usar sua dor para alertar outras mulheres sobre sinais que, muitas vezes, são confundidos com cuidado, insistência ou prova de amor. Ela diz que hoje consegue ver a vida de outra forma e percebe que muitas mulheres ainda acreditam que controle e obsessão são formas de cuidar ou amar.  “Fuja, que é cilada. Você pode ser a próxima vítima”, alerta.

Passados mais de três meses do crime, Alessandra diz que só agora conseguiu falar sobre o assunto publicamente. O processo, segundo ela, foi atravessado por luto, dor e saudade. Ela entende que a sua experiência de dor pode virar um encorajamento ou um alerta para as mulheres que estão na mesma situação que sua mãe.

A ausência de Ivete, conta, alterou completamente a rotina e a estrutura emocional da família. “Desde que nossa mãe foi morta, nossa vida anda vazia. Parece que o nosso mundo parou, mas as pessoas continuam vivendo. Eu e meus irmãos não temos mais colo e abraço de mãe. Não recebemos mais aquele áudio ou ligação dizendo: ‘Oi, minha filha, como vocês estão?’”

Um apelo às mulheres: denunciem

Ao final do depoimento, Alessandra deixa uma mensagem forte, dura e necessária, não apenas como filha de uma vítima, mas como mulher que viu o feminicídio atravessar sua própria casa. “Maldito é o homem que sai da barriga de uma mulher para machucar outra mulher”, afirma.

Ela reforça que obsessão, controle, violência verbal, emocional ou física não são demonstrações de amor. “Denuncie. Solicite medida protetiva. Você não está sozinha. Juntas somos mais fortes.”

 

Violência contra a mulher: denunciar salva vidas

Casos como o de Ivete reforçam a importância de reconhecer os sinais de abuso, buscar ajuda e acionar a rede de proteção o quanto antes.

Se você ou alguma mulher que conhece está vivendo situação de violência:

  • Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
  • Ligue 190 – Brigada Militar, em caso de emergência
  • Procure a Delegacia de Polícia ou a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) mais próxima
  • Solicite medida protetiva de urgência
Texto: Olhar Daqui RS
Fotos: Arquivo pessoal

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