Vape: o “vapor” que esconde um grave risco à saúde dos jovens

 


Com aparência moderna, sabores adocicados e a falsa promessa de ser menos nocivo que o cigarro tradicional, o cigarro eletrônico, conhecido como vape, tem conquistado espaço entre adolescentes e jovens brasileiros. Por trás do design discreto e da estética tecnológica, porém, esconde-se uma realidade preocupante: o uso do vape provoca dependência rápida e pode causar danos severos à saúde pulmonar, alguns deles imediatos e potencialmente irreversíveis.

Dados recentes apontam que cerca de 27 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais fazem uso de cigarro convencional ou eletrônico. Após décadas de queda no tabagismo entre adolescentes, a popularização dos vapes interrompeu essa tendência e acendeu um alerta nas autoridades de saúde. O público jovem é hoje o mais vulnerável e também o mais exposto à desinformação.

No Brasil, a venda de cigarros eletrônicos é proibida pela Anvisa desde 2009. Ainda assim, os dispositivos circulam amplamente, tanto no mercado ilegal quanto nas redes sociais. A experiência internacional mostra que a liberação em outros países não reduziu os riscos, apenas ampliou o consumo e facilitou o acesso, especialmente entre jovens.

Em entrevista ao Olhar Daqui RS, o médico pneumologista Gustavo Picolotto desmistifica a ideia de que o vape seria “apenas vapor”. Segundo ele, o cigarro eletrônico surgiu em 2003, na China, e rapidamente se espalhou pelo mundo. “Infelizmente, no Brasil, mesmo com a proibição, não houve ações suficientemente enfáticas para conter o uso e a comercialização”, avalia.

O alerta médico é claro: o vape não é inofensivo. De acordo com Picolotto, esses dispositivos contêm mais de duas mil substâncias químicas, além da nicotina. Entre elas estão metais pesados, como cobre e níquel, que entram na corrente sanguínea e atingem diretamente os pulmões.

“Ao serem inaladas, essas substâncias provocam inflamações intensas nos alvéolos e nos brônquios, reduzindo o fluxo de ar”, explica. Os sintomas mais comuns incluem falta de ar, tosse persistente, chiado no peito e cansaço, sinais que muitas vezes surgem precocemente.

Outro fator agravante é a alta temperatura dos dispositivos. O cartucho com aquecedor pode atingir até 300 °C, intensificando a agressão pulmonar. “O uso repetido pode levar a quadros graves de bronquite e inflamação pulmonar”, afirma o médico. Em alguns casos, a lesão pode ocorrer logo após o primeiro contato.

Essas lesões são conhecidas como Evali (lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico). Segundo o pneumologista, em situações mais severas, o quadro pode evoluir para insuficiência respiratória, exigindo internação hospitalar, uso de oxigênio e, em casos extremos, ventilação mecânica. “Não há garantia de recuperação plena”, alerta.

Para dimensionar a gravidade, Picolotto compara os casos mais severos de Evali aos quadros críticos observados durante a pandemia de Covid-19. “O grau de inflamação pulmonar pode ser semelhante”, afirma.

Embora o cigarro eletrônico seja considerado ainda mais prejudicial que o cigarro convencional, o médico ressalta que ambos trazem riscos significativos. O vape, no entanto, representa um desafio adicional por atingir pessoas cada vez mais jovens.

O problema já é tratado como questão de saúde pública. Para o especialista, o caminho mais eficaz passa pela conscientização precoce. “Quanto mais cedo esse tema for discutido nas escolas, menores serão os índices de uso. Muitos adolescentes estão começando muito cedo”, destaca.

Entre os fatores que explicam a popularidade dos vapes estão:

  • Design moderno, semelhante a um pendrive, discreto e associado à tecnologia;
  • Sabores artificiais, como frutas e doces, que mascaram o gosto amargo da nicotina;
  • Influência social, com iniciação muitas vezes estimulada por amigos, repetindo o padrão histórico do cigarro tradicional.

As famílias também desempenham papel fundamental no enfrentamento do problema. Segundo Picolotto, muitos jovens sabem que o uso é prejudicial e consomem o vape de forma escondida, favorecidos pela ausência de cheiro. “Ao identificar o uso, o ideal é uma conversa franca e a busca por avaliação médica. É muito difícil passar ileso, sem nenhuma sequela”, orienta.

O recado final é direto e sem rodeios: não existe forma segura de consumir nicotina. Quem ainda não experimentou deve evitar o primeiro contato. Quem já faz uso precisa interromper o quanto antes, com acompanhamento profissional, se necessário.

 


Quem é Gustavo Picolotto

O pneumologista Gustavo Picolotto é formado em Medicina em Lages (SC). A escolha pela especialidade surgiu a partir da influência de um professor e também de sua vivência pessoal com a asma. Realizou especialização no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, um dos principais centros de referência do país.

Além da pneumologia, aprofundou seus estudos na medicina do sono, área que trata distúrbios como apneia, roncos e paralisia do sono. Iniciou sua atuação em Sananduva, em 2019, e no mesmo ano passou a integrar o corpo clínico do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, onde adquiriu ampla experiência durante a pandemia de Covid-19, sendo o profissional responsável pelas internações médicas.

Atuante em Tapejara desde 2019, em 2024 passou a integrar a Clínica Medicina e Saúde, ao lado de outros especialistas, ampliando o atendimento pneumológico na região.

 

Texto: Renee Rodrigues Fontana - Olhar Daqui RS

Fotos: Divulgação

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