Corrida de rua ganha força em Tapejara, transforma rotinas e cria rede de incentivo entre atletas

 


Mais do que um esporte, a corrida de rua vem se consolidando em Tapejara como um movimento de saúde, superação e conexão entre pessoas. O que antes era uma prática de poucos adeptos, hoje reúne dezenas de corredores, fortalece vínculos de amizade, movimenta viagens para competições e já conta com uma entidade organizada para representar esse crescimento: a ATA (Associação Tapejarense de Atletismo).

Criada em 2024, a Associação nasceu da união de esportistas que já se encontravam nos treinos e nas provas e perceberam a necessidade de formalizar o grupo. Atualmente, a ATA conta com uma diretoria atuante e cerca de 60 associados, com um propósito claro: reunir pessoas que gostam de correr, independentemente de performance ou competição.

À frente da associação está a empresária Franciele Zanivan, uma das figuras que ajudaram a impulsionar a corrida de rua no município. Ela começou a correr em 2022, ainda de forma tímida, alternando caminhada e pequenos trotes, sem técnica e com dificuldades até para respirar durante os treinos.

O ponto de virada veio com o convite para participar de uma prova em São José do Ouro. Sem ter dimensão do que significavam 5 quilômetros, Franciele decidiu encarar o desafio e convidou a amiga Carla Lovatto para acompanhá-la. As duas começaram a treinar dois meses antes da competição. O percurso, que parecia simples à primeira vista, mostrou-se exigente, mas possível e marcaria o início de uma nova fase. “Naquela prova fizemos amizades e conhecemos pessoas que já participavam de diversas corridas da região. A partir dali, começamos a viver mais esse universo”, relembra.

Na época, segundo ela, eram poucas as pessoas adeptas da corrida em Tapejara. Quatro anos depois, o cenário é outro. A modalidade se espalhou, novos grupos se formaram e o esporte passou a integrar a rotina de homens e mulheres de diferentes idades e profissões.

Em 2025 Franciele viveu uma das maiores conquistas pessoais ao completar uma meia maratona correndo o tempo todo, sem caminhar. “Cruzar a linha de chegada foi sensacional”, resume. Para ela, a corrida é libertadora. Mais do que melhorar o condicionamento físico, a prática impactou diretamente o humor e a saúde mental. Também ampliou laços familiares: hoje, o marido e a mãe, de 66 anos, compartilham a rotina de provas e treinos. A mãe, que convive com Parkinson, começou a correr há dois anos, experiência que emociona a atleta e reforça sua crença no poder transformador do esporte. “A corrida transforma. É uma conexão comigo mesma e também com outras pessoas que têm a mesma energia”, afirma.

De atividade física a estilo de vida

O sentimento de transformação se repete nos relatos de outros corredores tapejarenses. Para o dirigente sindical e pastor Celso Martins, a corrida começou há cerca de três anos com um objetivo simples: sair do sedentarismo e cuidar melhor da saúde. Mas logo ele percebeu que o esporte ia além do físico.

No início, a proposta era apenas se movimentar. Com o tempo, vieram a vontade de aumentar ritmo e distância, além da estreia em provas. A primeira competição aconteceu em fevereiro de 2024, em Tapejara. Na ocasião, ficou em 9º lugar em uma categoria com 12 participantes. O resultado, longe de desanimar, serviu como impulso. “A corrida me mostrou que muitas vezes a maior dificuldade está nos limites que a gente mesmo impõe”, avalia.

Desde então, Celso passou a encarar a corrida como símbolo de disciplina e persistência. Seus treinos começam às 5 horas da manhã, mesmo nos dias em que a vontade de sair da cama é pequena. Em 2025, viveu a experiência mais marcante até agora ao completar os 42 quilômetros da Maratona Internacional de Porto Alegre, prova para a qual pretende retornar neste ano.

Além dos ganhos físicos, ele destaca os efeitos emocionais e mentais. Correr se tornou um momento de organizar pensamentos e cultivar foco. Também trouxe amizades e um legado dentro de casa: hoje, o filho Isaque também corre, motivado pelo exemplo do pai. “Ele seguiu meus passos e hoje está melhor do que eu. E é assim que deve ser: os filhos precisam buscar ser melhores que os pais”, diz, orgulhoso.

Amizade, autoestima e incentivo coletivo

A empresária Carla Lovatto também está entre as pioneiras dessa nova fase da corrida em Tapejara. Ela sempre gostou de esportes, mas foi em 2022, a partir do convite de Franciele para a prova em São José do Ouro, que passou a levar a corrida a sério.

Antes disso, a rotina era feita de caminhadas e pequenas tentativas de corrida. O desafio de completar a prova virou motivação, e o que começou como preparação pontual se transformou em hábito.

Para Carla, a corrida é uma verdadeira válvula de escape. Mesmo após pausas por conta de lesões, ela nunca pensou em desistir. “Hoje eu não me vejo sem correr”, afirma. A prática, segundo ela, melhorou a saúde e a autoestima, mas o maior presente veio das conexões criadas ao longo do caminho. Entre as memórias mais marcantes está a meia maratona disputada em Porto Alegre ao lado das amigas. Carla também faz questão de incentivar quem ainda tem receio de começar. A mensagem é simples: começar devagar, respeitar o próprio ritmo e permitir-se viver a experiência.

Superação que começa com um convite

Foi justamente pelo incentivo das amigas que Josiane Migon Bertóglio entrou para o universo da corrida. Convidada diversas vezes por Franciele, Carla e Fabi, ela costumava recusar, acreditando que não seria capaz. Até que um dia resolveu tentar.

O que começou como uma tentativa despretensiosa logo se tornou parte importante da rotina. Hoje, Josiane diz que a corrida impactou profundamente sua vida em diferentes aspectos: trouxe mais disposição física, ajudou a aliviar o estresse e organizar pensamentos, além de fortalecer a confiança, a disciplina e a autoestima. “Hoje eu me sinto muito mais capaz”, resume.

Ela define a corrida como superação e evolução. O esporte, que chegou cercado de dúvidas, levou-a a participar de competições e até conquistar troféus. “A corrida me mostrou que eu posso ir muito mais longe do que um dia imaginei”, destaca.

Saúde, foco e equilíbrio emocional

Entre os corredores que encontraram na modalidade um divisor de águas está também o dentista Juliano Alves. Ele conta que sempre enfrentou dificuldades com o peso e percebeu que isso já comprometia não apenas a saúde, mas a qualidade de vida como um todo.

A primeira mudança veio com o ciclismo, praticado por cerca de três anos. Depois de ganhar resistência física, decidiu migrar para a corrida. O início foi gradual, com acompanhamento de um amigo personal do grupo de corredores e treinos estruturados em planilhas.

Os resultados apareceram rápido: perda de peso, melhora no condicionamento e mais disposição para o trabalho. Mas, para Juliano, os benefícios mais profundos vieram no campo emocional. “A corrida deixou de ser apenas exercício. Hoje é um presente para minha mente e para o meu corpo”, afirma.

Ele relata que a prática ajudou a reduzir a ansiedade, aliviar o estresse e melhorar a concentração — algo fundamental em sua profissão. Também percebe reflexos positivos na convivência familiar, sentindo-se mais calmo e equilibrado no dia a dia.

Texto: Olhar Daqui RS
Foto: arquivo pessoal

 

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