A escalada da guerra no Oriente Médio já provoca reflexos
diretos no agronegócio brasileiro e acende um sinal de alerta especialmente
entre os produtores rurais. A principal preocupação está no aumento expressivo
do custo dos fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola e do qual
o Brasil segue altamente dependente do mercado externo.
Durante recente evento promovido pelo Sindilojas Nordeste
Gaúcho, o presidente do Sindicato Rural de Tapejara, Gilberto Borgo, analisou o
cenário e chamou atenção para os impactos econômicos que o conflito pode
provocar no campo e, por consequência, na economia dos municípios fortemente
ligados à atividade agrícola.
Segundo Borgo, a dependência brasileira de fertilizantes
importados é um dos principais fatores de vulnerabilidade diante de crises
geopolíticas internacionais. “Mais de 75% do nosso fertilizante é importado e,
se nós considerarmos as matérias-primas utilizadas para transformar as rochas
em fertilizante nacional, este número passa de 85%”, afirmou.
O presidente do Sindicato Rural destacou que o Oriente Médio
tem papel estratégico no abastecimento global de fertilizantes, especialmente
os nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura brasileira. Conforme
explicou, a região responde por parte significativa do fornecimento desses
insumos consumidos no país. “O Oriente Médio é responsável por suprimentos de
pelo menos 40% dos fertilizantes nitrogenados consumidos no Brasil, e isso tem
um peso muito grande”, observou.
Além da oferta direta de fertilizantes, Borgo lembra que a
região também influencia a cadeia produtiva de outros componentes
indispensáveis ao setor. Por ser grande produtora de petróleo, interfere na
produção de enxofre, elemento fundamental para a fabricação de ácidos sulfúrico
e fosfórico, bases para os fertilizantes fosfatados. “Isso tudo reflete naquilo
que nós importamos. Posso citar como referência: o que era US$ 300 hoje é US$
700”, pontuou.
Bloqueio no Estreito de Ormuz agrava logística e encarece
frete
Outro fator que agrava o cenário, segundo Borgo, é o impacto
logístico causado pelo conflito no Golfo Pérsico, especialmente com as
dificuldades de circulação no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais
importantes para o comércio internacional de insumos. Com o aumento da
insegurança na região, menos embarcações estariam transitando pelo local, o que
já pressiona os custos do transporte. “Por conta da guerra, poucos navios
transitam por lá e o frete ficou muito caro. Já tivemos um aumento de cerca de
US$ 300 por tonelada nos últimos dias, principalmente nos nitrogenados”,
alertou.
A alta no frete internacional, somada à valorização dos
fertilizantes no mercado externo, amplia ainda mais os custos de produção para
o agricultor brasileiro, justamente em um momento em que os preços das
commodities não apresentam a mesma força observada em crises anteriores.
Gilberto Borgo também fez um paralelo com 2022, quando a
guerra entre Rússia e Ucrânia já havia causado forte instabilidade no
fornecimento global de fertilizantes e pressionado os custos da agricultura. Na
época, segundo ele, o setor também viveu momentos de apreensão, mas encontrou
algum equilíbrio nos preços elevados dos grãos. “Em 2022, havia receio de que
pudesse faltar matéria-prima para a produção de fertilizantes nacionais e os
preços ultrapassaram os limites do aceitável. Porém, havia um fator positivo
ainda na agricultura, que eram os preços das commodities agrícolas”, lembrou.
Borgo recorda que, naquele período, a valorização dos
produtos agrícolas ajudou a amenizar o peso dos insumos. A soja chegou a
superar os R$ 200 por saca, enquanto milho e trigo ultrapassaram R$ 90, e o
arroz alcançou R$ 140. “De certa forma, compensou um pouco o preço demasiado
deste importante insumo que, na época, representava cerca de 30% do custo de
produção. Hoje, diante desta nova situação, está chegando muito perto de 50%.
São números alarmantes que irão interferir na economia dos municípios”, enfatizou.
Impactos devem atingir o plantio da próxima safra de
inverno
Na avaliação do dirigente rural, os efeitos mais severos
devem ser sentidos no planejamento da próxima safra, especialmente no plantio
de inverno. Como boa parte da atual produção já teve os insumos adquiridos
anteriormente, o maior impacto tende a recair sobre os produtores que ainda
precisam comprar fertilizantes nos próximos meses. “Haverá reflexos no plantio
da próxima safra de inverno. É um cenário muito ruim e a gente fica na torcida
para que isso se resolva o mais breve possível”, afirmou.
Mesmo diante da adversidade, Borgo destacou a resiliência do
produtor rural, embora reconheça que o momento atual é mais delicado do que o
vivido em 2022, justamente pela falta de compensação nos preços pagos ao
agricultor. “Sabemos que o produtor rural é um lutador e vai em busca de
resultados. Teremos uma safra razoável, porém os preços não estão favoráveis,
ao contrário do que aconteceu em 2022”, concluiu.
A guerra no Oriente Médio evidencia, mais uma vez, como o
agronegócio brasileiro permanece exposto às oscilações do mercado internacional
quando o assunto é fertilizante. Em um país que se destaca mundialmente pela
capacidade de produzir duas safras anuais em muitas regiões, o fornecimento
desses insumos é determinante para manter produtividade, competitividade e
rentabilidade no campo.
Com o avanço das tensões geopolíticas, o temor agora é de
que o encarecimento dos fertilizantes reduza margens, comprometa investimentos
e provoque impactos em cadeia sobre a economia local, especialmente em
municípios cuja base produtiva depende diretamente da força do agronegócio.
Texto e foto: Olhar Daqui RS